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A Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), por meio da Pró-Reitoria de Graduação (ProGrad-UFSCar), em parceria com a Fundação de Apoio Institucional ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FAI UFSCar) e com o Centro de Culturas Indígenas (CCI UFSCar), está desenvolvendo a pesquisa “Por onde tem andado, Parente? Mapeamento histórico e de experiências dos indígenas egressos dos cursos de graduação da Universidade Federal de São Carlos-SP”, com o objetivo de compreender as trajetórias acadêmicas e profissionais de indígenas formados pela instituição de 2012 a 2024.
O estudo é conduzido por pesquisadores indígenas vinculados à UFSCar — Dayane Teixeira Almeida Boni (Tariano), Ed Angel França Almeida (Terena), Jocimara Braz de Araújo (Pataxó), Luciana Maria dos Santos (Pankararu) e Pedro Manoel da Silva Santos (Pankararu) — sob orientação da Técnica em Assuntos Educacionais Dr.ª Thaís Juliana Palomino, da ProGrad, e coorientação do Professor Dr. Willian Fernandes Luna, do Departamento de Medicina. Conta, também, com a colaboração da Professora Dr.ª Luzia Sigoli Fernandes Costa, do Departamento de Ciência da Informação e da Equipe da Secretaria geral de Ações Afirmativas, Diversidade e Equidade e, do Professor Dr. luri Emmauel de Paula Ferreira, da Coordenadoria de Acompanhamento e Integração dos Egressos da ProGrad.
A pesquisa está inserida no contexto da Política de Ações Afirmativas (PAA) da UFSCar, implementada em 2007 e vigente desde 2008, que instituiu, entre outras medidas, a criação de uma vaga adicional anual em cada opção de curso de graduação para candidatos indígenas egressos de escolas públicas, anteriormente à reserva de vagas prevista pela Lei n° 12.711/2012, conhecida como “Lei de Cotas”.
Desde a entrada dos primeiros 14 indígenas pelo Vestibular específico da UFSCar, em 2008, a Universidade vem ampliando o acesso e a permanência desses estudantes, reconhecendo o papel das ações afirmativas como instrumento de justiça social e reparação histórica. Ao longo desses anos, mais de cem estudantes indígenas concluíram a graduação na instituição. No entanto, até o momento, não havia um estudo estruturado que investigasse suas experiências universitárias e suas trajetórias profissionais após a formatura.
Objetivos: mapear, compreender e fortalecer políticas públicas
Iniciado em 2024, o estudo tem como principal objetivo analisar as experiências de indígenas egressos durante os cursos de graduação da UFSCar e após o período universitário.
Pedro Manoel da Silva Santos–Indígena do Povo Pankararu/PE - mestrando do Programa de Pós-Graduação em Educação, autor e pesquisador desde o início da construção do projeto “Por Onde tem Andado, Parente?” - indica que é importante destacar o nosso desejo coletivo, antes mesmo de ingressar na UFSCar, em pesquisar sobre os egressos profissionais indígenas, não com um olhar quantitativo, mas com foco nas pessoas e suas trajetórias.
“Ao aceitar o desafio de realizar a pesquisa que envolve meus parentes que vieram antes de mim, eu e meus colegas de pesquisa assumimos a responsabilidade com seriedade e compromisso de mantermos as suas trajetórias presentes no Centro de Culturas Indígenas e na UFSCar. Os impactos da formação na UFSCar são consequências do desejo de nossa saída de nossos territórios, em busca de nossos sonhos individuais e que se tornam coletivos em nossa trajetória durante esse processo de formação. Ao me graduar no curso, primeiramente a conquista é do meu Povo Pankararu sendo a extensão do meu território onde eu estiver.”
A expectativa do estudo é construir um panorama inédito que, além de apresentar informações sobre o gênero dos profissionais, os povos indígenas a que pertencem e seus estados brasileiros de origem, buscará informações como:
Onde e como atuam os profissionais indígenas formados pela UFSCar?
Quantos seguiram na pós-graduação?
Quantos atuam em territórios indígenas ou em áreas urbanas?
Os impactos da formação na vida pessoal, comunitária e profissional?
A pesquisa também dialoga com as iniciativas recentes da UFSCar voltadas ao acompanhamento de egressos, como a implantação da plataforma Alumni UFSCar e a criação da Coordenadoria de Acompanhamento e Integração dos Egressos (CAIE-ProGrad), além de atender às diretrizes do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES).
Metologia da pesquisa
O estudo adota uma metodologia mista, combinando dados quantitativos e qualitativos. A primeira etapa contou com um levantamento documental, a partir do Sistema de Gestão Acadêmica (SIGA) e dos registros da Coordenadoria de Acompanhamento Acadêmico Pedagógico (CAAPE). A Divisão de Gestão e Registro Acadêmico (DiGRA), a partir de solicitação formal, forneceu os dados de contato de todos(as) profissionais indígenas formados(as) pela UFSCar no período de 2012 a 2024. Em seguida, os pesquisadores indígenas entraram em contato com estes egressos, por meio de redes sociais e canais digitais, explicando o objetivo da pesquisa. Todos os participantes receberam e concordaram com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), com garantia de confidencialidade, possibilidade de desistência a qualquer momento e ressarcimento de eventuais despesas relacionadas à participação.
A pesquisa ainda envolve outras duas etapas:
Etapa 2. Aplicação de questionário eletrônico junto aos egressos localizados, cujos dados passarão por análise estatística descritiva e bivariada;
Etapa 3. Entrevistas semiestruturadas com cerca de 15 egressos, buscando contemplar diversidade de povos, cursos e áreas de atuação.
As entrevistas estão sendo realizadas de forma remota e gravadas apenas para fins de transcrição, com garantia de sigilo e anonimato. Não haverá entrada em territórios indígenas, uma vez que o foco do estudo é a experiência universitária e a atuação profissional após a formatura.
A pesquisa segue as diretrizes das Resoluções nº 466/2012, nº 510/2016 e nº 304/2000 do Conselho Nacional de Saúde, além das recomendações da FUNAI.
O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFSCar (CAAE: 84900424.7.0000.5504) e foi construído em parceria com o Centro de Culturas Indígenas (CCI) da universidade.
Um dos diferenciais do estudo é o protagonismo indígena na condução da pesquisa. Os próprios pesquisadores são indígenas, sendo seis pós-graduandos e uma residente, o que fortalece a perspectiva interna e o diálogo entre universidade e comunidades.
O estudo também pretende oferecer subsídios para o aperfeiçoamento das políticas de acesso e permanência estudantil, além de servir como incentivo para os atuais estudantes indígenas, que frequentemente se perguntam sobre suas perspectivas profissionais após a graduação.
Resultados Parciais
Dos 102 profissionais formados de 2012 a 2024, 84 responderam ao formulário, sendo 41 homens e 43 mulheres das regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste do País.
São de 24 povos indígenas diferentes e variados Centros Acadêmicos (centros acadêmicos parece CA de Estudantes) da UFSCar: Ciências Agrárias, Ciências Biológicas e da Saúde, Ciências Humanas e Educação, Ciências Exatas e Tecnologias, Ciências em Gestão e Tecnologia, Ciências Humanas e Biológicas e Ciências da Natureza.
Dados preliminares indicam que as áreas de atuação profissional com maior representação são da Educação e da Saúde, seguida da área Agrícola/Ambiental.
Cabe destacar que esses egressos têm importante atuação na gestão de políticas públicas nas esferas municipais, estaduais e federais, como por exemplo em Secretarias Municipais, na Secretaria Especial de Saúde Indígena, na Fundação dos Povos Indígenas e no Ministério dos Povos Indígenas.
Com término previsto para dezembro de 2026, a pesquisa segue na fase de entrevistas, em que serão aprofundadas as experiências dos indígenas formados na UFSCar. Após a conclusão desse primeiro estudo, uma nova pesquisa será iniciada com o objetivo de compreender os motivos da evasão de estudantes indígenas nos cursos de graduação, visando o fortalecimento das condições de permanência.
Ao tornar públicos os resultados, a UFSCar reafirma seu compromisso com a equidade, a justiça social e o fortalecimento da representatividade indígena no ensino superior e na produção científica brasileira.
Texto produzido por: Dayane Teixeira Almeida Boni (Tariano), Ed Angel França Almeida (Terena), Jocimara Braz de Araújo (Pataxó), Luciana Maria dos Santos (Pankararu), Pedro Manoel da Silva Santos (Pankararu), Dr.ª Thaís Juliana Palomino, Prof. Dr. Willian Fernandes Luna, Prof.ª Dr.ª Luzia Sigoli Fernandes Costa e Prof. Dr. luri Emmauel de Paula Ferreira.
Revisão: Alessandra Kuba e Carla Augusta